Sobre inveja, vergonha e medo

Gente amiga! Estamos aprendendo tanto aqui na Índia... E nos sentimos muito alegres quando soubemos, ao chegar em Rishikesh, da presença de um mestre brasileiro muito querido: Sri Prem Baba. Um grande professor das emoções. Ele tem compartilhado seus saberes todas as manhãs em uma acolhedora sala (sempre lotada) em um ashram com vista para o Rio Ganges. É inspirada na fala dele a mensagem que transmitimos hoje a vocês. Como ele mesmo falou, uma descida aos porões das nossas inferioridades para lá tentar acender uma luz...

Compreendemos que alguns sentimentos são, na verdade, formas que a mente encontra para evitar entrar em contato com dores mais profundas. Na psicologia transpessoal chamamos de emoções autênticas apenas 5: medo, tristeza, raiva, alegria e afeto/vínculo. Todas as outras são derivadas destas e mais duradoras.

Enquanto as genuínas são funcionais, ou seja, existem para nos ajudar a encarar os acontecimentos naturais da vida, as substitutas são venenosas e disfuncionais. Nos fazem reprimir o sentimento original, que acaba se acumulando no corpo (em forma de toxinas e bloqueios emocionais, que o psicanalista Wilhelm Reich chamou de couraças) e influenciam nossas relações, muitas vezes de forma inconsciente.

Prem Baba dedicou uma manhã para falar de duas emoções substitutas que prejudicam a evolução de muita gente: a inveja e a vergonha. As duas são derivadas do medo, do temor que temos de não sermos aceitos em nossas expressões. Enquanto a inveja leva a exteriorização (ao olhar crítico sobre o outro), a vergonha faz o caminho inverso, nos impedindo muitas vezes de realizar coisas importantes.

Mecanismo de defesa

Segundo Prem Baba, a inveja é um mecanismo de defesa do ego que está ligado à crença na incapacidade. Ela pode estar relacionada a um choque de impotência instalado muito cedo na vida humana. Como, por exemplo, um bebê que não consegue mamar. Isso acontece porque a mãe não tem leite ou porque este está contaminado com medo, ódio, e outras formas de desamor.

Tem a ver com o sentimento de inadequação e não pertencimento. O amor é inclusivo e por isso aceita a felicidade do outro como sua. Mas, quando essas correntes de densidade afetam o campo de energia da criança, geram a ferida da exclusão. “Quando esta marca é impressa no sistema humano, é difícil de dissolver”, afirma ele.

Então, conforme o ser se desenvolve, porque ele precisa continuar crescendo, encontra formas de disfarçar esta dor. “A pessoa vai ampliando o seu repertório e o mecanismo de defesa vai se especializando. Para evitar sentir inferioridade, impotência, cria para si histórias que rebaixam os outros ao nível em que ela (pensa que) se encontra. Você desarma este mecanismo primeiro tomando consciência dele. Além disso, é preciso entrar em contato com o seu sentimento de inadequação, de fracasso, de inferioridade, de não pertencimento. Assim você começa a sair da distração que é ficar olhando para o outro.”

Questão de sobrevivência

Essas proteções que criamos não são totalmente más. Elas são importantes para a nossa sobrevivência. Como um veneno que um animal secreta para se proteger. Mas, que se ficar ali por muito tempo, pode se voltar contra ele. Por isso as emoções autênticas precisam ser liberadas. Porque as derivadas o distraem do próprio processo de desenvolvimento.

“Só quando você entra em contato com a sua dor é que estes cantos escuros podem ser iluminados. E o outro é um mestre para o invejoso”, diz Baba. Nesse caso, aquele que você tenta diminuir para se sentir melhor é alguém em quem precisa se inspirar, que tem alguma chave para você.

E o que há por trás da vergonha? “Ela sinaliza que você está perto de algo. A inveja é superficial, o leva para fora. Mas, se você já consegue enxergar a vergonha, logo conseguirá ver o que ela esconde. Basta querer. Se recolher. Ficar só. Focalizar a vergonha e se perguntar: O que em você é tão feio? Ou na sua história, que é parte do seu ser. Está no corpo. Você precisa entrar em acordo com as partes da sua jornada que ainda não aceitou. Talvez episódios de humilhação na infância... Associados à culpa e a sentimentos que você teve que suprimir para continuar.”

Para liberar a dor é preciso encará-la

Para Prem Baba, o medo e a vergonha andam sempre juntos. Tanto ela quanto a inveja são fugas do medo da rejeição. “Por negar algo de que você se envergonha muito, não consegue encarar os desafios. Então acaba vivendo na máscara, na superfície. Para ir além, você precisa perseguir esta marca vital. Você só consegue ir em frente quando olha para trás e sente o coração limpo, pois a vergonha é o passado lhe assombrando.”

Esta é uma reflexão bem profunda. Nem todos estão prontos para encarar suas sombras. Mas tem momentos em que elas estão tão perto de serem liberadas, que se tornam mais visíveis para nós. Se você tem conseguido enxergar coisas que antes não percebia sobre você mesmo, sobre seus medos, fraquezas, defeitos e limitações, isto pode ser um bom sinal.

Nosso conselho é, quando se deparar com emoções como estas, não fuja, não negue, não vá se distrair. Pelo contrário, se concentre e deixe que a energia flua dentro de você, trazendo à tona a ferida que está pronta para ser cicatrizada. Isso não vai curar, num passe de mágica, suas sensações desconfortáveis. No entanto, quando olhamos para nossas próprias dores, elas vão se dissolvendo naturalmente. E logo você vai conseguir observá-las de forma consciente, atenuando seus efeitos a cada experiência.

E — muito importante! — não se esqueça jamais de tratar você com a forma amorosa e acolhedora que todo mundo merece. Assim, conseguirá fazer o mesmo com as outras pessoas que cruzam o seu caminho. :)

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