Por que, onde e como meditar?


Quando falo sobre meditação, costumo diferenciar a técnica do estado meditativo. Por quê? Porque, no meu ponto de vista, todo e qualquer ato pode ser meditativo. A natureza vive em meditação e somos parte dela. O que ocorre é que, em geral, estamos afastados de nós mesmos, tontos com tantas informações, estímulos, projeções e comparações. Tudo isso nos tira do presente, que é o único espaço/tempo onde podemos ser — e isso é a verdadeira meditação.

No contexto de vida contemporâneo ocidental, é fundamental que tenhamos ferramentas para aquietar a mente. Cuidamos da higiene do corpo, da casa, mas somos pouco vigilantes com relação à qualidade dos nossos pensamentos. Vivemos muitas vezes presos ao que nos aconteceu no passado e preocupados com o futuro. E, como o cérebro reage à nossa imaginação da mesma forma como reagiria diante de situações reais, acabamos provocando reações químicas (hormonais) que seriam úteis caso a necessidade fosse lutar ou fugir de uma verdadeira ameaça, no entanto por sua repetição desnecessária no dia a dia se tornam um veneno.

Já foi cientificamente comprovada a relação entre o estresse e o aumento da ocorrência de doenças de toda a sorte. São tantas as tensões que não há tempo para o organismo se recuperar da reação instintiva de defesa, o que faz com que sobre pouca energia para as funções naturais de desenvolvimento. Mas a boa notícia é que as pesquisas também já demonstram que a meditação atua no equilíbrio integral da saúde dos praticantes, em virtude da diminuição das ondas mentais e consequentemente da liberação de cortisol e adrenalina, os principais hormônios do estresse.

Diante disso, muitas pessoas que têm em sua mente estereótipos do que significa “meditar” partem para uma busca por esta prática. Para dissolver qualquer ideia preconcebida, vamos apresentar ao longo deste texto algumas formas de entrar em contato com a presença, que nos devolve a nossa condição natural de harmonia e equilíbrio em todos os níveis.

Buscarei apresentar aqui algumas técnicas que podem ajudar a encontrar o estado meditativo — o remédio para a libertação dos condicionamentos mentais.

Mindfulness

É uma técnica praticamente idêntica às meditações milenares orientais, porém seus conceitos estão embasados não na fé, mas sim na neurociência. Não há nesse caso nenhuma pretensão espiritual, apesar de ser quase a mesma técnica utilizada por monges budistas há séculos.

Não precisamos dedicar a prática a nenhum Buda, nem a realizar no templo, nem sentar em uma postura específica. Trata-se apenas de observar a mente. Estar atento ao seu funcionamento procurando não julgar o que advém dela, nem se identificar com ela. Como assim?

Podemos observar nossos pensamentos como se fosse um filme. Esse observador está mais próximo de uma consciência expandida e não identificada com pensamentos e emoções do que o “eu” enquanto identificado com os próprios pensamentos e emoções. Aqui está um ponto que pode ser difícil de explicar sem a prática. Então vamos a ela.

Prática: Procure por alguns instantes fechar os olhos, relaxar seu corpo, tomar três ou quatro respirações profundas e se proponha a observar seus pensamentos, sem embarcar neles e também sem classificá-los como bons ou ruins; é apenas a mente fazendo aquilo que ela sabe fazer: pensar. Compare esse estado com o estado anterior, onde não havia essa observação. É simples assim. E a simplicidade é um dos adjetivos que mais se aproximam do Mindfulness ou da meditação livre, seja ela hindu, budista, sufi ou taoista.

A meditação Mindfulness é usualmente traduzida para o português como "atenção plena", porém, como explica o doutorando em psicologia e especialista em Mindfulness Tiago Tatton, a desatenção é também bem-vinda na prática. O ato de observar a desatenção nos revela autoconhecimento. A agitação na prática é apenas o reflexo da agitação no dia a dia.

Obs.: A prática sugerida acima é apenas uma das possibilidades de observação consciente que a técnica Mindfulness pode proporcionar. Mas qualquer coisa que você faça com estado de presença, buscando vivenciar ao máximo as sensações do momento, é considerada uma meditação.

Meditação clássica

Chamo aqui de meditação clássica aquela que a maioria das pessoas leigas imagina quando escuta essa palavra. Trata-se da meditação com as pernas cruzadas, coluna ereta, onde o foco da atenção é algum objeto ou símbolo (yantra dhyana), som (mantra dhyana), ritmo respiratório (pranayama), ou ainda outras mentalizações que são passadas diretamente do mestre para o discípulo (tantra dhyana).

Algumas linhas de yoga iniciam o caminho para o dhyana — meditação — através do pratyahara (abstração dos sentidos), para depois passar ao dhárana (concentração). Sendo o dhyana o penúltimo passo dessa caminhada que chega ao fim quando o praticante passa da meditação ao samadhi, estado de hiperconsciência e objetivo maior do yoga.

Porém, em geral, a maioria das pessoas que buscam hoje a meditação não está interessada em chegar ao samadhi — até porque nem sabe o que isso significa. Então vou explicar abaixo as técnicas de concentração como, no meu ponto de vista, fazem sentido a esta geração.

Perceba que aqui a forma de atuar é bem diferente da anterior.

Prática: Sente-se numa posição confortável, preferencialmente de pernas cruzadas — postura mais estável que consiga ficar por aproximadamente 5 minutos — e alinhe sua coluna. É importante que a coluna esteja alinhada sem esforço muscular. A lombar não precisa se curvar para frente, nem cair para trás. Se precisar utilize uma almofada para suspender um pouco os ísquios (ossinhos das nádegas) do chão. Foque um ponto na parede. Lembro que meu professor de yoga costumava brincar, “foque no cocô da mosca”. Pode também ser utilizada a chama de uma vela, ou algum símbolo de sua preferência.

Procure tornar a respiração bem natural, sem esforço, e foque sua atenção no ponto escolhido. Sua atenção pode ser que vagueie muitas vezes para longe desse foco. Seu exercício é trazer de volta a concentração para o foco da meditação. Assim sua mente vai, aos poucos, aquietando e a abstração dos sentidos pode ocorrer. Sabe quando estamos muito concentrados em nosso celular e alguém fala conosco, mas não escutamos nada? Isso é um mini-pratyahara. :)

À medida que for evoluindo nessa prática, perceberá que será mais fácil de focar em outras áreas de sua vida, razão pela qual muitas empresas estão optando por oferecer aos seus colaboradores práticas de meditação. Sugiro posturas de yoga que fortaleçam a região lombar e abdominal para quem deseja executar essa prática regularmente.

Meditação ativa

Aqui, temos uma outra possibilidade para aqueles que não querem sentar quietos ou parar para focar em algo. “Eu nunca vou conseguir meditar”, dizem os mais agitados. Esses são os que mais precisariam meditar... E para contemplá-los alguns estudiosos desenvolveram técnicas mais ativas.

Como disse no início do texto, qualquer ato pode ser meditativo. As práticas descritas apenas auxiliam na conexão com a presença. Qualquer ato tem, portanto, o poder de nos conduzir à meditação. Podemos caminhar com atenção, dançar, correr, cantar, chacoalhar, etc. Muitas pessoas que praticam jogging descrevem as mesmas sensações percebidas por quem medita.

O polêmico Osho, guru indiano, criou uma série de meditações ativas que atraem diversos jovens e pessoas mais ativas. Todas elas culminam em uma conexão profunda de meditação. Mas antes de sentar-se para meditar, na meditação denominada por ele de Kundalini, por exemplo, a pessoa passa por dois estágios de 15 minutos cada, em que o corpo pode descarregar resistências e se soltar.

No primeiro estágio ela treme o corpo e, no segundo, dança. Dessa forma, segundo o próprio Osho, o corpo sacia seu desejo por movimento e libera tensões que atrapalhariam sua permanência em estado de presença. Quando, então, o praticante senta, sua atitude corporal é de quietude espontânea, o que facilita a alteração das ondas mentais, já que corpo e mente estão em constante interação.

Ainda existem outras várias escolas de meditação que poderiam ser citadas. Porém, creio que já iniciamos um entendimento um pouco mais realista deste que é um estado de ser e não necessariamente uma prática.

Advertência: meditar vicia! Porém não tem contraindicação!

Aprenda a praticar

Se você quer aprender a praticar meditação individualmente, procure-nos pelo contato@aescoladasemocoes.com.br. Se está disposto a fazer isso em grupo, informe-se conosco sobre exercícios relacionados ao curso de educação emocional Conhece-te.

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