Medo: tirano ou aliado?




Do ponto de vista mais raso, o medo é um inimigo do qual devemos nos livrar. “Não tenha medo”, comumente dizem nossos amigos e familiares quando precisamos de um incentivo frente a um desafio. Infelizmente, ainda hoje, escuto frases antiquadas como “homem não chora”, que geram, entre outras coisas, um medo de vir a ter medo. Em muitas rodas de conversas significativas das quais já participei, muitas pessoas atribuem ao medo suas maiores dificuldades na vida.


Mas você já pensou se nossos ancestrais não tivessem medo? Alguns estudos sobre nossa sobrevivência dizem que se dependesse dos “corajosos”, nossa espécie estaria extinta. Graças aos medrosos tomamos os cuidados para nos proteger bem dos predadores e conseguimos manter a prole segura.


O Nobel em Economia Daniel Kahneman disse certa vez que, se lhe fosse dado o poder para eliminar só um viés em nosso cérebro, eliminaria o excesso de autoconfiança. Isso porque a sensação de insegurança, tantas vezes condenada no mundo coorporativo, é, na verdade, uma grande aliada para gestores e seus projetos.


Portanto, o medo é fundamental, funcional. Ele sinaliza ameaças antes de elas acontecerem, ou seja, nos protege e, de quebra, melhora nossa performance.


Entretanto, devemos sim nos perguntar se a ameaça a qual tememos é real ou imaginária. Caso não tenha embasamento real, é saudável buscar entender quais gatilhos estão nos provocando um medo infundado. O medo em excesso libera uma quantidade de hormônios em nosso corpo que pode se tornar tóxica. O estresse nocivo (já que em grande parte o estresse é também funcional) provém, dentre outras coisas, de uma postura temerosa constante e muitas vezes descabida.


Nos casos de medos súbitos, frequentes, fobias, tensão prolongada que impossibilita o relaxamento natural, ou ataques de medo relacionados com eventos traumáticos, a busca por apoio profissional é necessária.


A pergunta é: como não estar temeroso constantemente frente a uma pandemia, uma crise econômica, mudanças de cenário constantes, distanciamento físico de nossas relações mais seguras, ameaças quanto a nosso emprego, nossa empresa, nossa família?


Para alguns sábios orientais, o medo provém apenas de uma fonte: a percepção de que também vamos morrer. O medo da desconexão com nossa identidade, nosso ego. Cada morte que acompanhamos nos faz lembrar que esse é nosso destino. Cada ameaça, no fundo, nos remete à nossa impermanência e à nossa fragilidade. Portanto, quase sempre estamos fugindo dessa verdade. Seja em tempos de pandemia, seja nas férias frente à churrasqueira, cercado por familiares e amigos, o medo está presente em nossas vidas.


A saída seria o entendimento de que somos eternos. Mas não nosso corpo, nem nossas emoções, nem nossos pensamentos. Mas sim nosso silêncio, nossa conexão com tudo. Portanto, a iminência de morte causada pela pandemia, o medo da instabilidade financeira, etc., são medos genuínos, dos quais temos que nos ocupar para melhor seguirmos nossas vidas. Porém, enquanto não entrarmos em contato com o que em nós é imortal, dificilmente estaremos livres do medo.


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